
“As regras do jogo da criança são coações. Mas ela as deseja. Não vês homens notáveis disputarem os cargos? E, no entanto, os deveres dos notáveis são coações. Repara como as mulheres obedecem à moda na escolha dos seus enfeites, que ainda por cima variam de ano para ano. E aí temos outra vez uma linguagem que é constrangimento. Ninguém quer mais a liberdade de não ser mais compreendido.
Se eu denomino “casa” determinado arranjo das minhas pedras, não tens a liberdade de mudar a palavra, sob pena de ficares só, por não saberes fazer-te compreender.
Se eu estipulo que é de festa e de alegria determinado dia do ano, não tens a liberdade de não tomar isso em conta. Do contrário, te arriscas a ficar só, por falta de comunhão com o povo donde saíste.”
SAINT- EXUPÉRY. Cinderela
“Ninguém quer mais a liberdade de não ser mais compreendido.”
Por mais que se tente fugir, ser “escravo” das regras do “jogo” é uma condição que sejamos compreendidos e aceitos, quer por um grupo, comunidade, ou pela sociedade, de uma forma geral.
“Se eu denomino “casa” determinado arranjo das minhas pedras, não tens a liberdade de mudar a palavra, sob pena de ficares só, por não saberes fazer-te compreender.”
Nossas atitudes são determinadas por regras/padrões. Porém, quem é que define tais regras? Seria este alguém o “dono da verdade”? Fugir à regra nada mais é do que criar novas regras, ou seja, suas próprias regras. Como bem se sabe, existe na língua um número imenso de palavras, dotadas de sentidos que, por vezes, variam de acordo com o contexto ao qual elas se referem. Variam, sim, mas existem significados já pré-estabelecidos para cada vocábulo. Ou seja, dentro de uma discricionariedade para o uso criativo das palavras, há limites. E tais limites são o que chamamos de “Gramática Normativa”. “Inovar” dentro da gramática geralmente é visto como atitude “leviana” e irresponsável. Entretanto, existe a chamada “licença poética”, que dá aos escritores uma certa liberdade para “inventar” novos sentidos e funções gramaticais dentro do universo literário. Tal fato talvez ocorra por um motivo bem simples: as regras da Gramática convencional são baseadas no modo de escrita dos autores renomados. Dentre os modernos, vale citar o cronista Luís Fernando Veríssimo. O mesmo assume que não é nenhum “gramático”, mas que apenas possui o talento para a arte de bem-escrever e expressar (e de uma forma sensacional, diga-se de passagem), o que é indubitável. E ele mostra isso, como sempre de forma bem humorada, no texto “O Gigolô das Palavras”, de sua autoria. E não há como recriminar um artista como este. Eu não me atreveria.
“(...) sob pena de ficares só, por não saberes fazer-te compreender.”
É inevitável a “marginalização” daqueles que não seguem as regras do jogo. Se foi convencionada uma condição “x”, todos são, mesmo que inconscientemente, compelidos a segui-la, sob pena de ser excluído do grupo.
Bem, meu foco aqui foi a gramática, com intuito exemplificativo. Mas é cediço que a sociedade, de uma forma geral, rege-se por regras, sejam estas de cunho filosófico, religioso, político, etc. Entretanto, onde está a liberdade em meio a isso tudo? Ora, há, sim, a liberdade de escolher agir segundo as normas, ou fugir destas e ser fortemente reprimido e/ou marginalizado pela maioria, que não deseja ver prejudicado seu interesse comum com o qual estão acomodados. Fica a critério.

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